Histórias Inspiradoras

Do silêncio ao propósito: a travessia de uma mãe que transformou dor em missão no autismo

Por Vanessa Bergottini

Por Redação Pulse 67 | Publicado em 4 de abril de 2026
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Em muitos lares, o início da maternidade é marcado por descobertas sutis… Um olhar, um sorriso, um gesto que cria laços invisíveis entre mãe e filho. Mas, na casa de Chayene Georges do Amaral foi diferente, algo parecia faltar. E foi justamente essa ausência que deu início a uma jornada profunda, dolorosa e, hoje, extraordinariamente inspiradora.

“Durante as mamadas, eu sentia falta do olhar dela no meu”, relembra Chayene. “Eu orava olhando para minha bebê… e ela não retribuía.”

A pequena Ayla ainda não tinha nome para o que carregava, e sua mãe tampouco. O que existia era apenas uma inquietação silenciosa, um incômodo que crescia entre o instinto e a dúvida.

Com o passar dos meses, os sinais se tornaram mais evidentes: a ausência de resposta ao ser chamada pelo nome, o brincar sem função, o atraso na fala. Ainda assim, o diagnóstico parecia distante, quase impossível para quem sequer sabia o que era o transtorno do espectro autista.

Foi a partir dos dois anos de idade de Ayla que a família tomou uma decisão definitiva: sair de sua cidade e recomeçar em Campo Grande em busca de respostas. O primeiro parecer trouxe alívio e também atraso. “Não é autismo, apenas um atraso de fala”, disseram. Vieram então oito meses intensos de terapia fonoaudiológica, três vezes por semana. Mas a paz que a mãe buscava não chegava.

“Algo dentro de mim gritava que tinha mais”, conta. A resposta veio como um choque.

Aos dois anos e oito meses, no final de 2019, Ayla foi diagnosticada com autismo. Primeiro nível 1 de suporte. Depois, a realidade se mostrou ainda mais complexa: nível 2, associado ao TDAH e à epilepsia.

Foi o ponto de ruptura. “Eu desmoronei. Tive pânico, insônia severa, dor crônica. Não conseguia dirigir, não conseguia conviver. Eu passei a ter medo de pessoas.”

A dor de Chayene não era apenas pelo diagnóstico da filha, mas pela solidão de quem enfrenta um sistema despreparado, uma sociedade desinformada e uma rede de apoio inexistente. “O que enlouquece as famílias não é o autismo. É o sistema.”

Entre terapias, incertezas e crises, quem sustentou a base foi Luiz Renê do Amaral, esposo de Chayene e pai de Ayla. “Ele nos carregou nas costas”, afirma. “Foi o que manteve nossa família de pé.”

Mas a maior virada não aconteceu nos consultórios, aconteceu dentro dela.

Chayene descreve esse momento como uma morte simbólica. “A mãe de antes não sobreviveu. Era frágil, egoísta, despreparada. Eu precisei deixá-la ir.”

No lugar, nasceu uma mulher movida por propósito. “Entendi que não era mais sobre mim. Era sobre servir.” Foi nesse ponto que a dor encontrou a fé: "Ayla me colocou de joelho no chão. Eu estava diante do meu ‘mar vermelho’. E a única forma de atravessar aquelas águas revoltas era com Deus.”

A travessia aconteceu. E, do outro lado, não havia apenas superação, havia missão.

Hoje, aos 9 anos, Ayla é descrita pela mãe como uma menina amorosa, muito espiritualizada e potente. O diagnóstico permanece autismo nível 2 de suporte, mas já apresenta avanços significativos para nível 1 em diversas áreas.

Pequenas conquistas se tornaram grandes vitórias: participar de uma missa inteira, permanecer em um restaurante até a sobremesa, sair de casa sem ansiedade. “Isso é o céu para mim”, diz Chayene.

A evolução de Ayla não veio por acaso. Foi construída com muito amor, disciplina, acesso a terapias adequadas, reorganização familiar e, principalmente, decisão.

“Sem amor e terapias, não existe desenvolvimento. A sociedade precisa evoluir em sua capacidade de amar e acolher  a comunidade TEA.”

Mas a história dessa família não termina na superação individual. Ela se expande.

Da dor nasceu o propósito de impactar outras vidas. Assim surgiu o Congresso Internacional Autismo Sem Fronteira, um movimento que leva informação, acolhimento e capacitação para famílias e profissionais.

“Quando cheguei do outro lado da travessia, Deus me entregou esse projeto”, afirma Chayene.

Com apoio institucional da OAB-MS e do governo estadual, liderado por Eduardo Riedel, o congresso já se consolida como uma das iniciativas mais relevantes da região na causa do autismo.

Mais do que um evento, é um chamado. Um chamado para mães e pais que ainda estão no início da jornada: “Não parem. Lancem a rede todos os dias.”

Um chamado para profissionais: “Capacitem-se. Isso não é favor, é dever.” E um alerta para o poder público: investir em estrutura sem investir em conhecimento é perpetuar o problema.

No centro de tudo, permanece uma verdade simples e urgente reforçada por um jovem autista, Nicolas Brito Sales:

“Nem todo ser humano é autista, mas todo autista é ser humano.”

A história de Chayene, Renê e Ayla não é apenas sobre autismo. É sobre transformação. Sobre fé. Sobre reconstrução.

E, acima de tudo, sobre amor, aquele que, segundo ela, ainda é a única cura possível para a humanidade.